"É preciso que todos os homens permaneçam seres humanos durante todo o tempo em que estiverem vivos." Simone de Beauvoir

15 de mai de 2014

Intervenção fisioterápica neurológica

O idoso com dano neurológico decorrente de qualquer processo mórbido apresentará limitação funcional como consequência de alterações nos sistemas neuromuscular, musculoesquelético ou sensorial, realizando compensações, ou seja, movimentos e posturas anormais que com o passar do tempo podem comprometer ainda mais a sua funcionalidade. E como fisioterapeutas, devemos estar cientes de tais compensações.
Como consequência do dano neurológico, decorrente de doenças como AVE, traumatismo cranioencefálico ou processos neoplásicos, os idosos apresentam tônus e movimentos anormais, resultando em incapacidades físicas que contribuem para o déficit funcional. Em detrimento à lesão do motoneurônio superior observamos a presença de espasticidade e reações associadas (sintomas positivos), e incapacidade de gerar força muscular adequada ou seleção inapropriada de músculos durante o desempenho de uma tarefa (sintomas negativos).
Na maioria dos casos a espasticidade desenvolve-se gradualmente, determinada não apenas pela extensão e pela gravidade da lesão, mas também pelas influências ambientais e psicológicas. As principais características da espasticidade são: maior reflexo de estiramento (ou miotático), postura anormal e padrões de movimento em massa, co-contração inadequada e incapacidade de desempenhar movimento isolado em uma articulação ou exagero de reflexos exteroceptivos, como retirada em flexão, espasmos extensores e sinal de Babinsk.
Considerando que o idoso, na maioria dos acasos, já apresenta redução na força, a associação da espasticidade pode gerar incapacidade generalizada, pois o movimento somente poderá ser realizado com muito esforço, impedindo o desempenho de atividades funcionais básicas como manipulação e locomoção. A intervenção fisioterápica, nesses casos, deverá enfatizar os componentes dos padrões de movimento comprometidos por meio da inibição da espasticidade e facilitação do movimento normal, gera uma imagem proprioceptiva normal do movimento e maior habilidade no reaprendizado do movimento seletivo. A facilitação de um movimento mais funcional com redução da quantidade de esforço exigido  e orientações explicando ao paciente a causa  e o efeito dessa complicação e reações associadas, contrariamente à tentativa de inibi-las, proporciona uma intervenção mais apropriada.
Como já foi dito, o dano neurológico resultará em impedimentos do sistema neuromuscular, como o desequilíbrio na coordenação dos grupos musculares  e a espasticidade, bem como em impedimentos do sistema musculoesquelético. Em pacientes geriátricos neurológicos a redução de força observada é relevante e deve ser considerada o principal impedimento primário da limitação das atividades funcionais. A partir da observação da fraqueza muscular associada à restrição articular ou à espasticidade, há necessidade em restaurar a amplitude de movimento articular e em sequência restabelecer o desempenho muscular necessário para execução de atividades funcionais. É comum, na prática clínica, a intervenção por meio da associação de várias técnicas combinadas como mobilização articular, FNP e eletroestimulação.
É importante lembrar que o restabelecimento do controle postural também é parte essencial do tratamento, pois o controle do corpo é determinante para estabilidade e orientação de habilidades como locomoção e manipulação, indispensáveis para a independência do indivíduo. O tratamento deve incluir estratégias para a melhora do alinhamento postural vertical por meio de estímulos visuais ou verbais, melhora do controle postural dinâmico (movimentos de membros superiores, tronco superior ou membros inferiores), melhorando a utilização de estratégias para evitar quedas.
Um idoso após ter sofrido um AVE possui alteração de marcha e de manipulação por incapacidade de recrutamento muscular, por isso será determinado treino de força de músculos específicos e, posteriormente, realização de alguma atividade funcional como realização de uma passada sem apoio externo ou  encaixe de um objeto. Dessa forma, associa-se a funcionalidade como forma de verificação dos objetivos e condutas ao final de cada sessão, além da melhora  da motivação pela demonstração dos progressos, ainda que pequenos, numa mesma sessão.

Leia mais sobre espasticidade: Combatendo a espasticidade

Referências: 
- Shumway-Cook, A.; Woollacott, M.H. Motor Control: Theory and practical applications. Baltimore, Willians & Wilkins, 1995.
- Duthie, E.H. Practice of geriatrics. Saunders Company, 1998.
- Rebelatto, J.R.; Morelli, J.G.S. Fisioterapia Geriátrica: A prática da assistência ao idoso. Manole; 2º Edição, 2007.

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