"É preciso que todos os homens permaneçam seres humanos durante todo o tempo em que estiverem vivos." Simone de Beauvoir

17 de mai de 2014

Eletroterapia: estimuladores e suas ações terapêuticas

A aplicação de recursos eletroterápicos em idosos requer cuidados individuais e muito conhecimento das alterações orgânicas que ocorrem nessa etapa da vida. Antes de estabelecer qualquer prescrição é essencial  conhecer os vários fatores de riscos envolvidos, pois os possíveis benefícios dos recursos também podem induzir prejuízos ao paciente. 
Os inúmeros equipamentos encontrados no mercado, por vezes, confundem as tomadas de decisões clínicas na hora da aplicação. O mais importante é saber que todos eles são estimuladores elétricos transcutâneos, e muitos também são estimuladores elétricos nervosos transcutâneos (TENS), por serem aplicados através da pele com o objetivo fisiológico de excitar nervos periféricos. Portanto, qualquer estimulador eletroterápico é essencialmente uma unidade de TENS (Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation), desde que utilize eletrodos de superfície e estimule nervos periféricos.

Principais Ações Terapêuticas

Analgesia
A Teoria da Comporta de Dor (Controle de Barreira), proposta por Melzack e Wall, sugere que a aplicação da corrente elétrica é capaz de interferir nos mecanismos de transmissão dos sinais de dor ao longo do sistema nervoso central, criando barreiras para a transmissão do impulso doloroso até as vias neurais superiores. É importante lembrar o posicionamento dos eletrodos, pois quanto mais perto da área dolorosa a TENS for aplicada, maiores as chances dos estímulos dolorosos serem inibidos.
É provável que os efeitos excitatórios  diretos da TENS desencadeiem  outras reações fisiológicas indiretas como a liberação de substâncias analgésicas endógenas (endorfinas, encefalinas e serotonina, por exemplo).

Fortalecimento Muscular
Os estudos que envolvem a NMES (Estimulação Elétrica Neuromuscular) são bastante controversos devido a grande diversidade nos procedimentos metodológicos e o uso de diferentes parâmetros de estimulação. A maioria dos estudos tem indicado que quando essa corrente é aplicada em músculos sadios, não há ganhos de força muscular. Por outro lado, quando é aplicada em pacientes que, por alguma razão, não podem realizar voluntariamente um treinamento de exercícios com contração de alta intensidade, a NMES tem um papel importante para a recuperação dos níveis de força normais do paciente. Estudos também confirmam a capacidade dessa corrente em substituir o treinamento ativo como meio para a manutenção da força muscular em períodos de imobilização, repouso prolongado e outras situações que envolvam a diminuição da atividade muscular. Dessa forma, evitando ou minimizando os efeitos do desuso.
O aumento na capacidade contrátil do músculo paralisado, treinado com a NMES, pode ser devido ao aumento na síntese das proteínas contráteis, além de outras alterações secundárias, tais como o aumento no número de mitocôndrias e no volume do retículo sarcoplasmático.

Estimulação Elétrica Funcional (EEF/"FES")
As várias fórmulas de estimulação elétrica funcional têm sido desenvolvidas com intuito de melhorar o controle das contrações voluntárias do músculo esquelético, ou seja, torná-las mais funcionais. Em muitos pacientes  com lesões no SNC ou nos nervos periféricos, o controle sobre os músculos pode estar prejudicado. Nessas circunstâncias, a estimulação elétrica pode facilitar a execução de movimentos funcionais ou manter o alinhamento postural para a execução desses movimentos.
Diverso trabalhos têm demonstrado melhoras na ativação voluntária do músculo esquelético em pacientes hemiplégicos e paraplégicos com o uso da FES. É provável que isso ocorra não só pela ativação direta dos motoneurônios durante a realização das atividades, mas também por facilitar o feedback sensorial decorrente da passagem de corrente.
Os grupos musculares que serão ativados e as atividades que serão executadas a partir dessa estimulação variam muito, pois dependem da condição clínica do paciente e da criatividade do fisioterapeuta.

Cicatrização de Tecidos
Os idosos estão entre os grupos mais susceptíveis a sofrerem retardo de cicatrizações em feridas superficiais. Alguns autores sugerem que a sequência de eventos no processo proliferativo da cicatrização pode sofrer interrupção no caso de feridas crônicas. Assim, a estimulação elétrica por parte dos equipamentos poderia reiniciar esse processo. Hoje, várias configurações de correntes elétricas são indicadas, tais como a galvânica, a interferencial, as correntes de alta voltagem e as microcorrentes. Com o uso da corrente elétrica, ocorrem várias modificações em níveis celulares, como: formação de fibroblastos e osteoblastos; alterações na microcirculação arterial, venosa e linfática; modificações na concentração de células sanguíneas; modificações no tamanho e na concentração de mitocôndrias; e aumento da síntese protéica. Todas essas alterações levariam a um aumento no metabolismo e na nutrição celular. Acredita-se que o aumento da síntese protéica e o aumento na formação do colágeno seriam dois fatores particularmente relevantes  no processo de cicatrização de tecidos.

Controle de Edemas
O tratamento de edemas estimulação elétrica mostrou bons resultados em pacientes com linfedema secundário a mastectomia radical, ou ainda, em casos de edema associado com trauma agudo. Ainda não estão esclarecidos os mecanismos pelos quais a estimulação elétrica diminui o edema. Porém, o mecanismo mais aceito é que há melhora da reabsorção do fluxo venoso e linfático como resultado da ação de bombeamento dos músculos. O bombeamento muscular estimulado eletricamente melhora os gradientes de pressão desde o interstício até o sistema vascular. Como a pressão hidrostática intersticial é aumentada causando reabsorção do fluido, a pressão hidrostática capilar é consequentemente aumentada, criando um gradiente de pressão da periferia ao átrio direito.

Resumindo:
Principais ações terapêuticas dos estimuladores



Note que a corrente galvânica não está presente na tabela acima. Embora ela tenha sido usada na prática clínica ao longo dos anos, a sua aplicação tende a cair em desuso. Isso se deve ao desconforto produzido pela estimulação e ao risco de destruição tissular. As correntes pulsadas, com durações de fase mais curta, tendem a ser mais eficazes no alívio da dor e muito mais confortáveis para o paciente.

Leia mais: Eletroterapia: contra-indicações e precauções em pacientes idosos 

Referência:
- Rebelatto, J.R.; Morelli, J.G.S. Fisioterapia Geriátrica: A Prática da Assistência ao Idoso. Editora Manole, 2ª edição; 2007.

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